Mercado Livre | Vendedores alertam para “golpe da pedra” no marketplace

Pedras, tijolos, reboco, areia e cimento têm sido as novas armas de golpistas que utilizam o Mercado Livre para a prática do estelionato. É uma artimanha não necessariamente nova, mas que vem ganhando força ao longo dos últimos anos com base em políticas de devolução de dinheiro do próprio marketplace, além de leis brasileiras que garantem a desistência e o retorno de produtos comprados pelo comércio eletrônico, seja por arrependimento, defeitos de fabricação ou avarias durante o transporte.

É o chamado “golpe da pedra”, com cada vez mais ocorrências sendo registradas principalmente no YouTube. Ao receber um produto de alto valor, normalmente smartphones ou videogames, o comprador mal-intencionado registra uma reclamação junto ao Mercado Livre exigindo a devolução por defeito ou quebra no transporte. O serviço, então, aceita o pedido, gerando uma etiqueta para retorno. É aí que o estelionato acontece.

Ao receber a caixa de volta, o vendedor se surpreende com a presença de lixo, pedras ou tijolos em seu interior, como uma forma de simular o peso do produto original. Enquanto isso, o golpista fica com o produto e também com o dinheiro. Tentativas de contato, é claro, se mostram infrutíferas e, muitas vezes, os criminosos fazem uso de artimanhas como contas e endereços falsos para não serem rastreados.

Aconteceu, por exemplo, com Odilon Ribeiro, que enviou uma denúncia ao Canaltech após a venda malsucedida de um smartphone Moto X4 no valor de R$ 1.200. Ele diz que, desde o início, desconfiou do nome de usuário esquisito usado pelo comprador, constituído por letras e números aparentemente aleatórios, além de ter notado que o endereço utilizado não existia.

Vítima do “golpe da pedra”, o leitor Odilon Ribeiro teve prejuízo de R$ 1.200 (Imagem: Reprodução/Felipe Demartini)

O produto foi retirado em uma agência dos Correios devido à impossibilidade de entrega e, na sequência, veio a reclamação. Tentativas de contato entre vendedor e comprador não tiveram sucesso, com o Mercado Livre intervindo e autorizando o retorno do produto, com devolução do dinheiro, mesmo com Ribeiro alertando ao serviço sobre a possibilidade de golpe. Ele não ficou surpreso quando a caixa chegou e, em vez de conter um celular, ela estava cheia de pedras.

A greve dos caminhoneiros, que parou o país nas últimas semanas, teria tornado o processo ainda mais demorado, entre a postagem e a devolução do dinheiro até a constatação do golpe. O vendedor afirma, ainda, que não obteve nenhum tipo de resposta do Mercado Livre sobre o assunto e que permanece com o prejuízo.

Ganhou notoriedade, em meados de maio, outro caso desse tipo sofrido pela loja Marketplace Imports. Em um vídeo que, até o momento de produção desta reportagem, já acumula quase 700 mil visualizações, o vendedor Alberto Scherrer registra a abertura da caixa onde deveria estar um Xbox One X, supostamente avariado durante o transporte. No interior da embalagem do console, porém, estão peças de espuma e duas pedras, um desfecho do qual ele já desconfiava devido a inconsistências no peso da caixa e, também, por conseguir ouvir areia em seu interior.

O alcance da publicação, entretanto, levou a uma resolução amigável para o vendedor, que afirma ter contado até mesmo com o apoio de populares para falar diretamente com o comprador. Em uma segunda postagem, também no YouTube, ele afirma já ter recebido parte do pagamento, com valor total de R$ 2.960, e negociado o restante do ressarcimento pela compra do console em quatro parcelas.

Em nenhum momento, porém, ele cita ter contado com o auxílio do Mercado Livre nessa resolução. Scherrer também não respondeu ao contato do Canaltech sobre o assunto.

Leis e normas distorcidas

O principal ponto a ser ressaltado aqui é a existência não apenas de políticas do próprio Mercado Livre que permitem esse tipo de golpe, mas também de leis federais que parecem ter dado origem à prática. Em seus termos de uso, por exemplo, o marketplace garante a devolução do dinheiro aos compradores no caso de desistência ou problemas, desde que a transação tenha sido feita pelo seu sistema de pagamentos, o Mercado Pago.

O serviço, por exemplo, afirma ter um programa de proteção ao vendedor, voltado, justamente, para evitar problemas desse tipo. Comprovantes de envio ou entrega dos produtos são exigidos durante disputas desse tipo, com a companhia afirmando defender os lojistas no caso de tentativas de golpe por meio de contestações nas transações de cartão de crédito.

Já o artigo 49 do Código de Defesa do Consumidor também legisla sobre o assunto, dando ao comprador o direito de se arrepender da compra de produtos adquiridos fora de um estabelecimento comercial – pela internet ou por telefone, por exemplo – em até sete dias corridos, obrigando a loja a devolver os valores pagos de maneira integral. No caso de defeitos, o tratamento é feito de maneira diferente, mas muitas lojas aplicam as mesmas normas como forma de reduzir os transtornos aos clientes.

É justamente esse o caminho usado pelos clientes para realização dos golpes. De olho nas normas, as reclamações são registradas no momento do recebimento dos produtos, com a devolução sendo aceita pelo Mercado Livre e o dinheiro devolvido uma vez que o item é postado de volta. Ao mesmo tempo, interrompem qualquer contato com o vendedor.

O Canaltech entrou em contato com o Mercado Livre sobre o problema em busca de esclarecimentos sobre a suposta falta de apoio aos vendedores que foram vítimas do “golpe da pedra” e, também, sobre eventuais preocupações que eles poderiam tomar para que casos desse tipo não aconteçam. O marketplace, entretanto, não retornou até o momento de publicação desta reportagem.

fonte: Canaltech

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